Mas o que é de fato esse tal “pecado contra o Espírito”?

Publicado: 7 de dezembro de 2016 em Comportamento, Formação, Igreja
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Esta talvez é uma grandes maiores dúvidas existentes no coração de todo cristão de que deseja seguir aqui na Terra os passos de santidade do Cristo. Mas a Palavra de Deus, que traz a exortação quanto ao pecado contra o Espírito, não explicita o que vem a ser de fato essa agressão “imperdoável”, nas palavras dos evangelistas.

Mas a Igreja, em sua santa sabedoria, através do Papa João Paulo II em sua Carta Encíclica Dominum et Vivificantem (1986), nos aproxima do entendimento pleno dessa sagrada exortação. Abaixo, transcrevo o trecho da citada Encíclica que contém a explicação:


Tendo em conta tudo o que temos vindo a dizer até agora, tornam-se mais compreensíveis algumas outras palavras impressionantes e surpreendentes de Jesus. Poderemos designá-las como as palavras do “não-perdão”. São-nos referidas pelos Sinóticos, a propósito de um pecado particular, que é chamado “blasfêmia contra o Espírito Santo”. Elas foram expressas na tríplice redação dos Evangelistas do seguinte modo:

São Mateus: “Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. E àquele que falar contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, a quem falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro”. (Mt 12, 31 s.)

São Marcos: “Aos filhos dos homens serão perdoados todos os pecados e todas as blasfêmias que proferirem; todavia, quem blasfemar contra o Espírito Santo, jamais terá perdão, mas será réu de pecado eterno” (Mc 3, 28s)

São Lucas: “E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem, perdoar-se-á; mas a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado” (Lc 12, 10).

Por que a “blasfêmia” contra o Espírito Santo é imperdoável? Em que sentido entender esta “blasfêmia”? São Tomás de Aquino responde que se trata da um pecado “imperdoável por sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados”[1]

“…consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz.”

Segundo uma tal exegese, a “blasfêmia” não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se “convencer quanto ao pecado”, que provém do Espírito Santo e tem caráter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a “vinda” do Consolador: aquela “vinda” que se efetuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo: o Sangue que “purifica a consciência das obras mortas”.

Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas “obras mortas”, no pecado. E a “blasfêmia contra o Espírito Santo” consiste exatamente na recusa radical de aceitar esta remissão, de que Ele é o dispensador íntimo e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado nem nesta vida nem na futura, é porque esta “não-remissão” está ligada, como à sua causa, à “não-penitência, isto é, à recusa radical a converter-se. Isto equivale a uma recusa radical de ir até às fontes da Redenção; estas, porém, permanecem sempre abertas na economia da salvação, na qual se realiza a missão do Espírito Santo. Este tem o poder infinito de haurir destas fontes: “receberá do que é meu”, disse Jesus. Deste modo, Ele completa nas almas humanas a obra da Redenção, operada por Cristo, distribuindo os seus frutos. Ora a blasfêmia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso “direito” de perseverar no mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou e abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências e da remissão dos pecados.

Um estado de alma que se diria endurecido em razão de uma escolha livre: é aquilo que a Sagrada Escritura repetidamente designa como “dureza de coração”

A ação do Espírito da verdade, que tende ao salvífico “convencer quanto ao pecado”, encontra no homem que esteja em tal situação uma resistência interior, uma espécie de impermeabilidade da consciência. Um estado de alma que se diria endurecido em razão de uma escolha livre: é aquilo que a Sagrada Escritura repetidamente designa como “dureza de coração”.[2] Na nossa época, a esta atitude da mente e do coração corresponde talvez a perda do sentido do pecado, à qual dedica muitas páginas a Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia. [3] Já o Papa Pio XII tinha afirmado que “o pecado do século é a perda do sentido do pecado”. [4] E esta perda vai de par com a “perda do sentido de Deus”. Na Exortação acima citada, lemos: “Na realidade, Deus é a origem e o fim supremo do homem, e este leva consigo um gérmen divino. Por isso, é a realidade de Deus que desvenda e ilumina o mistério do homem. É inútil, pois, esperar que ganhe consistência um sentido do pecado no que respeita ao homem e aos valores humanos, quando falta o sentido da ofensa cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro sentido do pecado” [5].

É por isso que a Igreja não cessa de implorar de Deus a graça de que não venha a faltar nunca a retidão nas consciências humanas, que não se embote a sua sensibilidade sã diante do bem e do mal. Esta retidão e esta sensibilidade estão profundamente ligadas à ação íntima do Espírito da verdade. Sob esta luz, adquirem particular eloquência as exortações do Apóstolo: “Não extingais o Espírito!”. “Não contristeis o Espírito Santo!” [6]. Mas sobretudo, a Igreja não cessa de implorar, com todo o fervor, que não aumente no mundo o pecado designado no Evangelho por “blasfêmia contra o Espírito Santo”; e, mais ainda, que ele se desvie da alma dos homens — e como repercussão, dos próprios meios e das diversas expressões da sociedade — deixando espaço para a abertura das consciências, necessária para a ação salvífica do Espírito Santo. A Igreja implora que o perigoso pecado contra o Espírito Santo ceda o lugar a uma santa disponibilidade para aceitar a missão do Consolador, quando Ele vier para “convencer o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo”.

“É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou e abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências e da remissão dos pecados.”

Jesus, no seu discurso de despedida, uniu estes três domínios do “convencer”, como componentes da missão do Paráclito: o pecado, a justiça e o juízo. Eles indicam o âmbito do “mistério da piedade”, que na história do homem se opõe ao pecado, ao mistério da iniquidade. [7] Por um lado, como se exprime Santo Agostinho, está o “amor de si mesmo levado até ao desprezo de Deus”; por outro, “o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo” [8]. A Igreja continuamente eleva a sua oração e presta o seu serviço, para que a história das consciências e a história das sociedades, na grande família humana, não se rebaixem voltando-se para o polo do pecado, com a rejeição dos mandamentos de Deus “até ao desprezo do mesmo Deus”; mas, pelo contrário, se elevem no sentido do amor em que se revela o Espírito que dá a vida.

Aqueles que se deixam “convencer quanto ao pecado” pelo Espírito Santo, deixam-se também convencer quanto “à justiça e quanto ao juízo”. O Espírito da verdade que vem em auxílio dos homens e das consciências humanas, para conhecerem a verdade do pecado, ao mesmo tempo faz com que conheçam a verdade da justiça que entrou na história do homem com a vinda de Jesus Cristo. Deste modo, aqueles que, “convencidos quanto ao pecado”, se convertem sob a ação do Consolador, são, em certo sentido, conduzidos para fora da órbita do “juízo”: daquele “juízo” com o qual “o Príncipe deste mundo já está julgado”. [9] A conversão, na profundidade do seu mistério divino-humano, significa a ruptura de todos os vínculos com os quais o pecado prende o homem, no conjunto do “mistério da iniquidade”. Aqueles que se convertem, portanto, são conduzidos para fora da órbita do “juízo” pelo Espírito Santo, e introduzidos na justiça, que se encontra em Cristo Jesus, e está n’Ele porque a “recebe do Pai”, [10] como um reflexo da santidade trinitária. Esta justiça é a do Evangelho e da Redenção, a justiça do Sermão da Montanha e da Cruz, que opera a “purificação da consciência” mediante o Sangue do Cordeiro. É a justiça que o Pai faz ao Filho e a todos aqueles que Lhe estão unidos na verdade e no amor.

Nesta justiça o Espírito Santo, Espírito do Pai e do Filho, que “convence o mundo quanto ao pecado”, revela-se e torna-se presente no homem, como Espírito de vida eterna.

[1] S. Tomás de Aquino, Summa Theol. IIa-IIae, q. 14, a. 3; cf. S. Agostinho,  Epist. 185, 11, 48-49: PL 33, 814-815; S. Boaventura, Comment. in Evan. S. Luc: cap. XIV, 15-16: Ad Claras Aquas, VII, 314 s.

[2] Cf. Sl 81 [80], 13; Jer 7, 24; Mc 3, 5.

[3] João Paulo II, Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de Dezembro de 1984), n. 18 AAS (1985), PP.224-228.

[4] Pio XII, Radiomensagem ao Congresso Catequístico Nacional dos Estados Unidos da América, em Boston (26 de Outubro de 1946): Discorsi e Radiomessaggi, VIII (1946), 288.

[5] João Paulo II, Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de Dezembro de 1984), n. 18 AAS 77 (1985), PP. 225 s

[6]Tes 5, 19; Ef 4, 30.

[7] Cf. João Paulo II, Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de Dezembro de 1984), nn. 14-22: AAS 77 (1985), pp. 211-233.

[8] Cf. S. Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28: CCL 48, 451.

[9] Cf. Jo 16, 11

[10] Cf. Jo 16, 15

FONTE:
Papa João Paulo II. Carta Encíclica Dominum et Vivificantem (18 de Maio de 1986) n.46-48. Acesso em 07 de dezembro de 2016, disponível em Site do Vaticano: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_18051986_dominum-et-vivificantem.html

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